Desde o início dos anos 2000, o ensino da cultura afro-brasileira e indígena tornou-se obrigatório em todas as escolas de Educação Básica do país. Entretanto, mais do que ler sobre o assunto em livros pedagógicos, o aprendizado torna-se muito mais efetivo e prazeroso quando as crianças podem experienciar, por meio de atividades práticas, a realidade de nossos ancestrais.
E foi exatamente esse tipo de experiência enriquecedora que os alunos dos 1º e 2º Anos A e B, da Emef “Profª Elza Nadai Silvino”, tiveram a oportunidade de vivenciar, com a realização do projeto “Educação Afro-Indígena”, elaborado e conduzido de forma dinâmica e participativa, pelas professoras do contraturno, Marcela Perazza Redondo e Josileine Navas Leoni.
O projeto realizado durante o segundo bimestre deste ano, envolveu aproximadamente 100 alunos com idades entre 6 a 8 anos, em atividades práticas sobre a cultura afro-brasileira, como por exemplo: a história da máscara africana e a produção dessas máscaras com pintura em tina guache; a confecção de colares com linha e macarrão cru; a reprodução da brincadeira “Banyoka”, vivida pelas crianças da Zâmbia e do Zaire (países africanos); estudo dos costumes, comidas típicas, música, com direito à apresentação de dança surpresa da “prô Jô” e “prô Marcela”, caracterizadas com vestimentas africanas.
Segundo comentou a professora Marcela Perazza, um dos momentos mais especiais pra ela durante as atividades sobre a cultura afro-brasileira, foi notar o despertar da consciência entre os alunos sobre pertencimento, identificação e valorização das diferenças. “Foi muito gratificante ouvir relatos das crianças, especialmente das meninas, que passaram a sentir muito orgulho da sua cor de pele e do seu cabelo”, disse emocionada.
Urucum ou colorau?
A eterna discussão entre os mais velhos sobre qual é o nome correto (urucum ou colorau), chegou ao final para os alunos dos 1º e 2º Anos. Eles aprenderam que os dois possuem a mesma na origem, porém, o urucum é o nome da semente (e da planta), e o colorau é o tempero em pó feito com essa semente.
Mas além de desvendar esse enigma, os alunos foram “convocados” a participar do processo de produção do colorau – usado pelos povos indígenas brasileiros há séculos como tinta para pintura corporal e facial, protetor solar natural, repelente de insetos e corante para tingir objetos e artefatos.
Após a colheita das sementes de urucum feita pelas professoras, em sala de aula, os alunos aprenderam a abri-las e retirar a sementinha vermelha. Depois as sementes passaram pelo fogo em procedimento executado pelas professoras. Já no pátio da escola, as crianças tiveram a oportunidade de socar as sementes em um grande pilão, fazendo a mistura com fubá. Na sequência e com auxílio da peneira, os alunos separaram o colorau em pó da sementinha escura que sobrou. O colorau produzido pelos alunos foi embalado em pequenos saquinhos e levado para casa como recordação da atividade.
Para a aluna Hemanuelly do 1º Ano B, colocar a mão na massa, ou melhor, nas sementes de urucum, e participar das etapas da produção do colorau foi uma das atividades mais legais do projeto. “Eu aproveitei que minhas mãos estavam vermelhas da semente de urucum e fiz uma pintura no meu rosto, assim como os indígenas fazem”, explicou a menina de 7 anos, toda orgulhosa da sua arte.
Jardim temático
Além de experiências enriquecedoras, o projeto realizado com os alunos também beneficiou a Emef Elza Nadai com novo jardim temático. Com auxílio das professoras e equipe escolar, as crianças plantaram mudas de origem indígena e africana nos canteiros da escola. Foram utilizadas mudas de trapoeraba roxa, também conhecida como macaco roxo, planta de origem mexicana, mas usada pelos povos indígenas como planta medicinal; e também mudas da espada de São Jorge, ou espada de Ogum, planta de origem africana.
Além de embelezar a escola com novo paisagismo do jardim, os alunos também fizeram o cultivo de pequenas mudas de trapoeraba em saquinhos que ao final do projeto, puderam levar pra casa e plantar com auxílio de seus familiares.
A aluna Laura Duarte, do 2º Ano B, disse que achou muito divertido plantar espada de São Jorge no canteiro da escola. “O nosso jardim ficou muito bonito, colorido. E eu ainda plantei uma mudinha que vou poder levar pra casa”, comemorou a pequena de 7 anos.
A coordenadora pedagógica da escola, Alessandra Rodrigues Alves Tozzo, destaca a dedicação das professoras Jô e Marcela, que por meio de propostas dinâmicas, participativas e cuidadosamente planejadas, proporcionaram às crianças experiências significativas de aprendizagem, incentivando a interação, a reflexão, a construção do conhecimento e a valorização da diversidade cultural.
“O trabalho realizado com nossos alunos foi muito além do que apenas cumprir o currículo escolar exigido por lei; evidenciando o compromisso das professoras com uma prática pedagógica de qualidade, criativa e inspiradora”, finalizou a coordenadora.
Secom - PMP
Alunos recebem visita de liderança indígena para encerramento do projeto
Como atividade de encerramento do projeto “Educação Afro-Indígena”, alunos e professores da Emef “Profª Elza Nadai Silvino” receberam a visita da liderança indígena Ranulfo de Camilo, da Aldeia Icatu, para um bate-papo com as crianças.
Paramentado com algumas peças típicas de vestiário e artefatos indígenas, o senhor Ranulfo conversou com os alunos e respondeu a todo tipo de pergunta e curiosidade vinda dos pequenos, como por exemplo: como são produzidos os cocares, colares, brincos, quais materiais utilizados; como vivem na aldeia; como é o banheiro; se eles dormem em redes, colchão ou no chão, entre outras indagações relacionadas aos costumes, vestuário e instrumentos musicais.
Após o bate-papo, a liderança indígena convidou as crianças para participarem de uma brincadeira indígena chamada “corrida de maracá”. Orientados pelo senhor Ranulfo e seus dois netos, os alunos se divertiram durante a competição em grupo onde todos saíram vencedores por aprender uma nova brincadeira.
O convidado também cantou uma canção para as crianças na língua indígena e depois a traduziu, para que todos pudessem compreender o seu significado.
Além de liderança indígena da Aldeia Icatu, localizada na cidade vizinha de Braúna/SP, o senhor Ranulfo Camilo também é conselheiro do Museu das Culturas Indígenas, comumente chamado de Museu dos Povos Indígenas, com sede na capital paulista.
Demais indígenas da tribo “Terena” acompanharam o senhor Ranulfo durante a visita à escola e aproveitaram para mostrar seus artigos e artefatos artesanais que foram expostos sob os olhares cheios de curiosidade e encantamento dos alunos e profissionais da escola.
De acordo com a diretora da unidade, Regiane Simon Dantas, ações como essas promovem uma educação pautada no respeito à diversidade, no combate ao preconceito e ao racismo e na formação de cidadãos conscientes. “O projeto idealizado pelas professoras Jô e Marcela e abraçado por toda equipe escolar reflete o verdadeiro papel da educação na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária; proporcionando aos estudantes aprendizagens significativas que certamente marcarão suas trajetórias”, concluiu a diretora.
Secom – PMP